quinta-feira, 22 de abril de 2010

Top top

Por Gabriel Giraud e Rafael Mathias

Se você teve compromisso, casou, bebeu demais, estava sem grana, brigou com a namorada ou com o senhor seu marido, ficou de castigo ou foi preso, não importa! Agora você vai poder ver (ou rever) aqueeele filme maneiro que já saiu de cartaz. E por um precinho legal!

A nova mostra do Instituto Moreira Salles com os melhores filmes de 2009 segundo a crítica vem com vários títulos legais. E, como crítica é com a gente, o Cadernos decidiu fazer a listinha com a crème de la crème: os melhores filmes segundo o Cadernos dentro da mostra dos melhores filmes de 2009.

Primeiro, Tarantino. A obra-prima – para muitos – de Quentin Tarantino nos criou uma excitação sanguinária pela Segunda Guerra. Os diálogos, como sempre, memoráveis... mas as que são proferidas pelo ganhador do Oscar de melhor ator coadjuvante Christoph Waltz nos levaram ao delírio. Leia mais sobre os Bastardos aqui.

O sueco Deixa Ela Entrar (Låt den rätte komma in) ficou várias semanas na salinha 3 do Estação Botafogo, quase sempre com sua única sessão lotada. O clima frio e tenso do filme, as psicoses do menininho que sofre bullying, a vampira e seu tutor assassino são elementos que podem arrepiar qualquer um. Mas o lirismo que a relação deles tem forma um contraponto interessantíssimo, onde as monstruosidades da vampirinha são aceitáveis e perdoáveis. Impossível não amá-los, ainda mais com uma história tão simples e tão original.

Clint Eastwood aparece em dobro na mostra, e recomendamos os dois filmes. A Troca (Changeling) tem uma linda fotografia, um roteiro convincente, cheio de mistério e uma Angelina Jolie madura na atuação. Gran Torino mostra como a tolerância e o respeito conquistam até um homem que parece um galho seco de tão morto. E também mostra como a família pode parecer estranha e como a amizade pode nascer das diferenças. Simples e marcante, com uma direção muito contundente e direta.

Marcando presença na nossa listinha, não poderia faltar um filme tupiniquim. Bem, o protagonista se trata de um dinamarquês. Cidadão Boilesen é um documentário não apenas sobre esse homem que contribuiu com a ditadura militar, mas também como a ditadura era bastante civil, financiada por empresários. E a narrativa tem umas tiradas quase que pop, com musiquinhas ritmadas que fazem do filme uma aula didática e interessante.

E o filme que causou discórdia entre os membros do Cadernos, mas que é um dos favoritos de muita gente, é o último de Almodóvar. Abraços Partidos (Los Abrazos Rotos), antes de contar uma história, faz uma ode ao cinema. Usando o Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos para homenagear o nosso amado mundo audiovisual, ele cria uma trama bem típica, com idas e vindas e altos e baixos e, sobretudo um visual digno de exposição de cada frame da sua película. Penélope brilha com as cores de Almodóvar. E os acontecimentos que acontecem por um triz sempre nos arrepiam.

A mostra começou na terça dia 20 e vai até quinta-feira, dia 29. Algumas sessões serão seguidas por debates com especialistas do universo cinematográfico. Há vários outros títulos, como Entre os Muros da Escola (Entre les Murs), Garapa e Foi Apenas um Sonho (Revolutionary Road), veja a programação aqui. Os preços são 10 reais a inteira e 5 a meia. Esperamos que vocês aprovem nossa seleção! E... quais as apostas que vocês já têm para 2010?

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Fora de Sintonia

Por Rafael Mathias


Para quem gosta de sitcoms, um filme que tem Tina Fey e Steve Carell como protagonistas é promessa de comédia em dobro. Mas nem todas as promessas nos são cumpridas. Em Uma Noite Fora de Série, os protagonistas de The Office e 30rd Rock saem de suas séries para fazer um casal sem graça, num filme sem graça.

Todos os elementos criados para se destruir um filme de comédia estão presentes na trama: casal se metendo em confusões extracotidianas, péssimos atores como vilões, cenas de perseguição que desafiam todas as leis da física, e, o pior de tudo, o não respeito do tempo real aceitável (sabe aquelas cenas em que uma bomba marcando 10 segundos no cronômetro demora 1 minuto pra explodir, pois é, similar, só que sem edição). O próprio filme parece fazer pouco caso da história exibida, ao nem tratá-la com seriedade nem ironia, e sim com uma comicidade superficial.

O elenco de apoio, cheio de celebridades, se ridiculariza só de abrir a boca. Steve Carell continua sendo um ótimo comediante e cai bem no papel que lhe foi designado, a cara de besta ajuda, a de Tina Fey não. Não há praticamente nada a se aproveitar no filme. Triste para os fãs das séries, triste para o cinema de comédia atual. Um rabisco pelo Carell, para não dar zero.

Solta a roda e vira


A segunda edição do Viradão Carioca veio meio capenga – adiada devido às chuvas que ocorreram no Rio há duas semanas – mas vai tentar bater o seu nem tão estrondoso sucesso do ano passado. A Virada Cultural, evento já tradicional em São Paulo, replicou-se nessa versão carioca baseando-se nos pilares acesso à cultura, integração e ocupação da cidade. O Viradão vai acontecer nessa sexta, sábado e domingo (23, 24 e 25 de abril).

E é claro que o cinema não poderia ficar de fora! O Cadernos buscou na – infelizmente, nem tão extensa – programação cinematográfica do Viradão e selecionou o que você não pode – ou não deveria – perder.

Sábado e domingo haverá sessões no Cine Santa, em Santa Teresa. Tudo grátis! Mas atenção: as senhas para todas as sessões de cada dia serão distribuídas no próprio dia de exibição, assim que o cinema abrir (por volta de meio-dia, segundo o simpático rapaz que atendeu nosso telefonema). Destaque para os filmes O Homem Que Engarrafava Nuvens e Só Dez Por Cento É Mentira [crítica aqui].


Manoel de Barros na sua desbiografia cinematográfica Só Dez Por Cento É Mentira.


Já no Centro Cultural Parque das Ruínas, também em Santa Teresa, terá sessões de filmes não-narrativos, com VJs e música eletrônica ao vivo. As projeções serão nas paredes das ruínas. A performance audiovisual acontecerá nos três dias do Viradão, sempre no mesmo horário, das 19h às 22h, também grátis. Na verdade, essas performances muito experimentais, diferentes e modernosas nos amedrontam um pouco, mas vai que você não vai estar fazendo nada... quem sabe você conheça pessoas interessantes, pelo menos...

Confira o resto da programação de cinema e outras artes no Viradão Carioca aqui. E só cuidado para não sair virando todas, hein!


segunda-feira, 19 de abril de 2010

Ode ao gauchês teen

Por Gabriel Giraud


O cinema brasileiro se resume a favela, violência, questões sociais, zero-meias e zé pequenos, certo? Errado. Tem muito filme muito bom que trata do homem-indivíduo, de análises psicológicas, de sentimentos... Noite Vazia (Walter Hugo Khouri), Bicho de Sete Cabeças (Laís Bodanzky) e Eu Sei Que Vou Te Amar (Arnaldo Jabor) são alguns títulos que são como óleo no oceano do cinema brazuca.

Os Famosos e os Duendes da Morte tem uma pretensão de ser um filme revolucionário, pois trata do universo ligeiramente emo dos adolescentes, passando por questões como a rede de contatos virtual e amor, depressão e morte. Além disso, sua estética busca a plasticidade e a perfeição a todo custo, com movimentos de câmeras vazios em significado e enquadramentos fotográficos pelo simples prazer de colorir a tela com um desenho bonito. Bem que minha mãe dizia: “meu filho, se você come chocolate todo dia, você vai acabar esquecendo o quanto é bom comer chocolate”. Aqui é um pouco a mesma coisa: cada travelling charmoso do menino no computador indo da esquerda pra direita, cada luz refletida nos belos cabelos castanhos, cada close naqueles rostinhos burgueses acaba soando como um excesso.


A história também tem a pretensão de mostrar a vida dos jovens de hoje. Então, prepare-se para uma vida vazia, chata e com o iPod no ouvido. As tensões são misteriosas, o que é reconhecível é tudo aquilo que todos nós já conhecemos do universo adolescente: menininho querendo pegar menininha, menininho fumando baseado, menininho na internet, menininho brincando com o outro menininho e, incrementando, menininho numa vibe emo. A relação com a família é relativamente fria, a relação com a cidade é estranha para nós, moradores de uma megalópole.

A criançada é a velha burguesia tête-à-claque com carinha de picolé de chuchu. Bem, há quem goste. No fim, senti que perdi duas horas da minha vida vendo aquilo. Nosso parceiro de blog, Mathias, curtiu, achou original. Pois é, como eu disse, há quem goste. Mas eu ainda queria uma originalidade com algo que fizesse mais sentido. E a nova geração, em vez de ter pretensões de originalidade absoluta, podia dialogar mais com as maravilhosas obras do cinema brasileiro de outras gerações que fogem do feijão-com-arroz cinematográfico.

sábado, 17 de abril de 2010

Tem gente?

Você já reparou que a maior parte dos filmes de Kubrick possui ao menos uma cena importante que se passa em um toalete? Eu demorei a reparar...

Em Nascido Para Matar (1987), por exemplo, quem não se lembra da cena memorável em que o enlouquecido soldado (Vincent D'Onofrio) estava num banheiro coletivo, sentado num vaso sanitário e armado? Ou em Laranja Mecânica (1971), onde Kubrick nos leva ao W.C., e passamos a apreciar Alex (Malcolm McDowell) se aliviando após estuprar a dona da casa? E, em O Iluminado (1980), na cena do banheiro em que o garçom diz ao Nicholson que matou a mulher e a filha por elas discordarem dele e Nicholson se vê próximo a mesma situação?

Talvez tantas cenas no banheiro sejam apenas um reflexo kubrickiano, no qual descobrimos que este é o lugar onde nos sentimos mais a vontade em casa, e por isso nos permitimos fazer praticamente qualquer coisa. Será?







Um Filme Legal

Por Gabriel Giraud




É sempre um tremendo desafio falar sobre filmes de ação. Ou é maneiro, ou é clichê. Bem, até os maneiros são clichê, mas, por alguma razão de identificação, nós gostamos. Mas imagine você vendo só borrões; a câmera fica naquele treme-treme de guerra e tensão psicológica e tem um corte a cada segundo. Até os diálogos fora de campo de guerra têm o treme-treme. A câmera grita (recomendo um saquinho emergencial ao seu lado). O mais engraçado disso tudo é que eu saí do cinema falando pra mim mesmo “caramba, que filme legal!”.


Sim, é mais um filme do Matt Damon cheio de ação. Mais um filme do diretor dos filmes Bourne cheio de ação. Mais um filme da Guerra do Iraque cheio de ação. Mais um thriller cheio de ação. É mais um filme de ação – é verdade que tem tanta ação que deixa a gente até meio tonto –, mas ele prende a gente. Não pela ação em si, mas pelo suspense que é criado. O subtenente vivido por Damon estranha os “tiros na água” com os quais sua tropa vem se deparando. Eles têm que achar armas químicas e biológicas. Mas nunca acham. Não precisamos nem ser adivinhos para saber o porquê de eles nunca acharem as armas. Descobri o fim do filme aos dez minutos. Mas ainda sim é um filme legal.

Nesse suspense há duas alas rivais dentro do exército americano, o Pentágono, representado pelo personagem vivido por Greg Kinnear (o irmão gêmeo siamês de Matt Damon no filme Ligado Em Você, sim, recordar é viver!) e uma jornalista que usa o personagem de Kinnear como fonte para seus artigos. E todo mundo já sacou a história do filme. As falas são muito machão americano: “we are not playing games, kid” e por aí vai... Mas ainda sim é um filme legal.


Não sei que elementos podem ter causado esse encanto pelo filme. Talvez seja pelas imagens granuladas. Talvez por ser o primeiro filme que eu vejo onde negociar com ditadores fundamentalistas islâmicos é a ação principal do mocinho. Talvez pelos olhos azuis de Matt Damon. Talvez por eu ser uma cria de Domingo Maior com Temperatura Máxima... mas esse longa tem uma cerejinha que definitivamente torna o filme muito legal.

Os cult-nietzschinianos não vão gostar. Mas, assim como eu, muita gente pode achar esse filme... legal.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Amor, ódio e sabres de luz

Por Rafael Mathias 

Selecionado este ano para o Festival É tudo verdade, o documentário O Povo Contra George Lucas aborda a obsessão dos fãs pela saga Star Wars. Seguindo por esse viés, o longa consegue dissecar várias questões relacionadas à produção, distribuição e marketing que originaram e mantiveram a fama do universo Jedi.

O amor de um geek não tem limites, e se tratando de Star Wars é forte à ponto de virar ódio. É em torno disso que se desenrola o filme, e o melhor de tudo, com uma aguçada abordagem humorística.

Com uma grande quantidade de entrevistados (entre eles o diretor Francis Ford Coppola) e material amador reunido, os admiradoes dos filmes e do diretor dão depoimentos expressivos e reacionários. Além disso, parte deste material é formado por produções amadoras dos fanáticos. Além de depoimentos, os vídeos são homenagens, extensões da história, remakes, ou “correções”. Este último existe porque a adoração da geração de fãs dos anos 70 à primeira trilogia, não se repete para a segunda.

A instatisfação dos fãs com os episódios mais atuais, também ocorreu com o lançamento dos DVDs da edição restaurada por George Lucas (que trazia modificações às cenas e à história). O diretor alegou posteriormente que a versão original não estaria mais disponível e os negativos foram destruidos. Isso leva o documentrário para um debate interessantíssimo: de quem seriam, na prática, os direitos de um filme que afetou tanto uma geração e faz parte da cultura pop até hoje?

O documentário é muito mais do que isso. Com uma ótima edição e imparcial da forma como pode ser, os dois anos e meio de produção foram bem aproveitados para nos trazer esse ótimo filme.

Que a força esteja com você.